Iowa e New Hampshire, <br>perigo e promessa

António Santos

Em ano de presidenciais nos EUA, o desenrolar das eleições preliminares nos partidos Democrata (PD) e Republicano (PR) no Iowa e no New Hampshire confirmaram o desgaste das antigas estruturas políticas e a polarização da sociedade em torno de candidatos invulgares na tradição política norte-americana.

O Estado do Iowa, onde, no início de Fevereiro, decorreram os primeiros caucus, representa apenas um por cento da população dos EUA. Já o Estado do New Hampshire, onde, esta terça-feira, tiveram lugar as primárias, equivale a menos de 0,5 por cento. Contudo, os votos destes eleitores registados pesam muito mais do que o número de delegados que elegem: por serem os primeiros na longa corrida para eleger os delegados que nomearão os candidatos dos dois partidos, os caucus do Iowa e as primárias do New Hampshire exercem uma decisiva influência na orientação de voto dos escrutínios seguintes, em que se jogam estados de maior dimensão. É certo que já por várias vezes os vencedores do PR no Iowa e no New Hampshire falharam a nomeação, como aconteceu, aliás, em 2008, com Mike Huckabee e John McCain ou, em 2012, com Rick Santorum, mas a regra é a transposição dos resultados do Estado para os estados.

Dos resultados do Iowa e do New Hampshire emergem três fenómenos novos na paisagem política dos EUA. Em primeiro lugar, o PR sofre uma imensa guinada à direita protagonizada por figuras marginais ou estranhas do aparelho do partido. É relevante que entre os cinco primeiros republicanos classificados (Cruz, Trump, Kasich, Carson e Paul) quatro concorram contra «o sistema» ou contra «os políticos». Jeb Bush, o candidato fiel à tradição republicana e que angariou mais de cem milhões de dólares junto do grande capital ficou arredado dos três primeiros lugares. À mesma sina parece condenado Marco Rubio, o mais moderado dos republicanos. Ao contrário do que se passa na Europa, onde a resposta do fascismo à crise capitalista requer o exantema de organizações fascistas, nos EUA o retorno do fascismo serve-se do velho casulo republicano.

Trump, que na terça-feira venceu no New Hampshire é, efectivamente, mais do que um grotesco artista de circo: a campanha de massas com recurso à estética mussoliniana e a promessa do regresso a uma «América» desaparecida anterior aos direitos das mulheres, dos negros, dos imigrantes e dos homossexuais, deve ser levada a sério. Trump dirige comentários sexistas às mulheres, ri-se de jornalistas com deficiência, chama «violadores» aos mexicanos, promete legalizar a tortura, ameaça invadir e «conquistar» meia dúzia de países, considera usar a bomba atómica para transformar a Palestina «num parque de estacionamento»… e, mesmo assim, lidera todas as sondagens com uma vantagem de cerca de vinte por cento. Já Cruz, que venceu no Iowa, assume-se como o candidato do fundamentalismo cristão. O enfant terrible do movimento proto-fascista Tea Party defende a redução do salário mínimo federal, a proibição da interrupção voluntária da gravidez mesmo em caso de violação e o desmantelamento das principais funções sociais do Estado federal. 

A palavra socialismo

Em segundo lugar, e à semelhança do homólogo republicano, o PD também é estremecido pela entrada de um elemento marginal ao partido. Bernie Sanders, o auto-proclamado «socialista democrático» do Vermont empatou no Iowa e venceu no New Hampshire, pondo em causa a mais que conjecturável coroação de Hillary Clinton. Longe de ser o «socialista» do epíteto que lhe ficou colado, Sanders representa a tradição social-democrata do PD que todos julgavam extinta desde os anos oitenta. A «revolução política contra a classe dos bilionários» de que fala não é mais nem menos do que o regresso ao modelo do New Deal de Franklin Delano Roosevelt. Embora comprometido com a agenda do imperialismo e com o sistema capitalista, o fenómeno Bernie Sanders demonstrou que a crise do capitalismo está a abrir uma janela política e eleitoral para ideias inauditas ao espectro político dos EUA, popularizando e desdramatizando a palavra «socialismo». Fazendo eco das causas do movimento Occupy Wall Street, Sanders defende a criação de sistemas públicos de saúde e de Ensino Superior, promete subir o salário mínimo federal para 15 dólares/hora e quer aumentar a taxação sobre os grandes grupos económicos que Hillary Clinton representa. A ascenção de Sanders, que partiu de uma desvantagem nas sondagens de 41 por cento face a Clinton, reveste-se de uma promissora faceta geracional: entre os jovens democratas, 86 por cento estão com Sanders e menos de 10 por cento estão com Clinton. Em apuros, a candidata tradicional do PD, onde representa a direita, está a ser forçada por Sanders a um constrangedor esforço para usar uma retórica progressista.

Em terceiro e último lugar, uma eventual fragmentação descontrolada dos dois partidos do grande capital permite antecipar uma crise política prolongada. O Wall Street Journal, na semana passada, ia mais longe e previa um «resultado extremo». Mau agoiro ou boa aposta, a verdade é que muitos dos novos fenómenos políticos e partidários que temos conhecido em Espanha, na Grécia ou em França estão, nos EUA, a eclodir dentro dos dois partidos guardiões da ordem estabelecida, testando a resistência e a unidade das antigas estruturas a tensões nunca antes suportadas. Para a eventualidade do processo de primárias desembocar num resultado inconveniente a sectores chave do grande capital, está a ser estudado um inédito plano B: uma candidatura alheia a ambos os partidos.




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